A escola pode atuar na prevenção de questões de saúde mental ao criar espaços de diálogo e identificar sinais que demandem atenção
Abraçado pela cor amarela, o mês de setembro chega com um convite para falar sobre cuidado, saúde mental e valorização da vida. Na escola, essa conversa significa mais do que organizar uma atividade em um dia específico: é uma oportunidade para fortalecer vínculos, abrir espaços de escuta e ajudar estudantes a reconhecer quando precisam de apoio (e onde encontrá-lo).
Essa conversa ganha importância diante dos sinais de sofrimento emocional relatados pelos próprios adolescentes. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE neste ano, mostra que 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram ter sentido tristeza na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores ao levantamento. Outros 26,1% afirmaram ter sentido, no mesmo período, que ninguém se preocupa com eles.
O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio que, no Brasil, mobiliza diferentes setores da sociedade ao longo do mês de setembro. Criada em 2015, a campanha busca ampliar o diálogo sobre saúde mental e prevenção. O dia 10 de setembro, por sua vez, marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
A pesquisa também apontou que 18,5% dos adolescentes disseram ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre. Além disso, 32% afirmaram ter sentido vontade de se machucar intencionalmente no último ano.
Esses dados reforçam a importância de a escola estar atenta, mas não significam que professores ou gestores devam assumir o lugar dos profissionais de saúde. O papel da escola está em reconhecer essas questões, criar condições para que sinais de sofrimento sejam percebidos e acolhidos e, quando necessário, acionar a rede de apoio.
A escola também precisa saber escutar
Grande parte da infância e da adolescência acontece dentro da escola. É ali que estudantes constroem amizades, enfrentam conflitos, lidam com expectativas, fracassos e mudanças e desenvolvem formas de se relacionar consigo mesmos e com os outros. Por isso, o ambiente escolar também pode ser um espaço importante para fortalecer vínculos e criar oportunidades de escuta.
Para o professor Erison Lima, de Manaus (AM), essa escuta pode revelar situações que nem sempre aparecem de forma evidente na sala de aula. Por meio do Clube do Silêncio, iniciativa criada no Centro Educacional de Tempo Integral Eng. Prof. Sérgio Alfredo Pessoa Figueiredo, os estudantes encontram um espaço de acolhimento e escuta, onde podem falar livremente sobre o que estão vivendo, com o acompanhamento do docente.
O projeto nasceu em 2018, a partir das vivências de professores e estudantes diante de um contexto de violência urbana. Com reuniões semanais que ocupam diferentes espaços da escola, a ideia é que os jovens tenham a possibilidade de conversar, refletir e desenvolver relações baseadas em empatia, respeito e cuidado.
“No Clube do Silêncio, o que mais sobressai é o desabafo dos jovens sobre o acúmulo das pressões diárias”, conta. Segundo ele, muitos relatos estão relacionados a crises de ansiedade, sentimentos de inadequação, medos e questões familiares e sociais.
A escuta também pode mudar a maneira como o professor interpreta determinados comportamentos. “A apatia, a desatenção, a agressividade ou a queda no rendimento costumam ser equivocadamente rotulados apenas como falta de interesse ou indisciplina”, afirma Erison. Para ele, observar esse contexto ajuda a compreender que, por trás de um determinado comportamento, pode existir um sofrimento que nem sempre é evidente.
Na prática, esse cuidado começa em atitudes simples: chamar o estudante pelo nome, olhar nos olhos, perceber mudanças de comportamento e, diante de um conflito ou de uma tarefa não entregue, buscar compreender melhor a situação antes de simplesmente aplicar uma punição.
“Assim, deixamos de ver apenas o aluno para enxergar o sujeito integral, com suas vivências, traumas, sonhos e necessidades humanas”, resume o professor.
Quando a escuta vira parte da rotina
Para Erison, a experiência do Clube do Silêncio mostra que não é preciso criar uma grande estrutura para começar. Cada escola pode adaptar a proposta à sua realidade e criar espaços seguros de escuta. “Não precisa ter o nome de clube; apenas ser um espaço seguro para eles já basta”, explica.
É justamente aí que o Setembro Amarelo pode deixar de ser uma ação pontual e se transformar em uma oportunidade para incorporar o cuidado à rotina escolar. Cartazes, murais e rodas de conversa ajudam a colocar o tema em pauta, mas a prevenção ganha força quando existem espaços regulares de diálogo e uma equipe preparada para reconhecer situações que merecem atenção e encaminhamento especializado.
Uma prática para começar em 10 minutos
Não é preciso esperar uma grande campanha ou um projeto estruturado para abrir espaço à escuta. Inspirado no Clube do Silêncio, Erison sugere uma prática que pode ser adaptada para diferentes turmas e realizada em menos de 10 minutos:
1. Faça uma pausa
Organize os estudantes em círculo e reserve um minuto para uma breve respiração guiada. A ideia é marcar uma transição entre a agitação dos corredores e o momento de encontro da turma.
2. Faça uma pergunta aberta
Antes de iniciar a aula, pergunte como os estudantes estão se sentindo naquele dia. Uma possibilidade é: “com qual palavra ou sentimento você define seu dia hoje?” Não é necessário que todos respondam.
3. Escute sem tentar resolver
Quem quiser pode compartilhar sua resposta. O papel do professor, nesse momento, é ouvir sem julgar, minimizar ou tentar solucionar imediatamente o que foi relatado. Como orienta Erison, se um estudante disser que está exausto ou com raiva, uma resposta possível é simplesmente reconhecer o que foi expressado: “obrigado por compartilhar. É legítimo se sentir assim e você não está sozinho.”
4. Respeite quem prefere ficar em silêncio
Ninguém deve ser obrigado a falar sobre seus sentimentos. Passar a vez também é uma possibilidade. O objetivo é construir segurança, e não criar uma situação de exposição.
A atividade pode ser realizada uma vez ou incorporada à rotina semanal. Segundo Erison, quando o estudante percebe que aquele espaço é seguro, a confiança pode abrir caminho para conversas mais profundas sobre saúde mental, empatia e convivência.
Escutar também é saber quando pedir ajuda
Criar espaços de diálogo não significa transformar professores em terapeutas. A escola pode fazer uma primeira escuta, acolher o estudante e perceber sinais que mereçam atenção, mas situações que exigem acompanhamento especializado precisam ser encaminhadas para a rede de proteção.
Na experiência de Erison, esse trabalho envolve o contato com psicólogos e assistentes sociais da rede de educação, que podem orientar os professores e contribuir para o acompanhamento dos casos. Dependendo da situação e da organização do território, essa articulação pode envolver também serviços de saúde e assistência social, além dos responsáveis pelos estudantes. “A escola não pode ser uma ilha isolada”, resume o docente.
E a vida digital também faz parte dessa conversa
Se a escola quer falar sobre o bem-estar de crianças e adolescentes, também precisa olhar para os espaços onde boa parte das relações acontece hoje. Redes sociais, aplicativos e plataformas fazem parte da vida cotidiana dos estudantes e podem ser espaços de conexão e pertencimento, mas também de exposição, cyberbullying, discursos de ódio, conflitos e pressão social.
O que acontece no ambiente digital não fica necessariamente do lado de fora do portão. Conflitos entre estudantes podem continuar nas redes, uma exposição pode repercutir na sala de aula e situações vividas no mundo virtual podem aparecer na escola em forma de isolamento, ansiedade, agressividade ou queda no rendimento.
Por isso, desenvolver uma relação mais consciente, segura e responsável com o ambiente digital também é uma forma de cuidado. A educação para a cidadania digital ajuda estudantes a compreender os riscos e as responsabilidades envolvidos nas interações on-line e a construir estratégias para lidar com diferentes situações.
Na plataforma Escolas Conectadas, o curso “Computação na Educação: Redes Sociais para o Uso Consciente e Criativo” aborda temas como cidadania digital, desinformação, cyberbullying, saúde mental e inclusão, propondo caminhos para trabalhar o uso seguro e criativo das redes em sala de aula.
Já a formação “Cidadania Digital” propõe um olhar mais amplo sobre a vida dos estudantes na internet, passando por reputação digital, segurança, Inteligência Artificial, discursos de ódio, direitos e deveres on-line.
Muito honrado em ver a experiência do Clube do Silêncio ilustrando uma pauta tão urgente e necessária!
Parabéns à equipe do Escolas Conectadas pela abordagem sensível sobre o Setembro Amarelo, destacando que escutar o estudante, validar suas emoções e construir pontes de afeto e cuidado é o que realmente transforma a realidade escolar. Um forte abraço a todos de Manaus/AM!