A série de matérias “Educação em 2026” reúne temas fundamentais para os educadores se aprofundarem no ano que se inicia
Com a Educação Digital passando a integrar oficialmente os currículos das escolas brasileiras a partir de 2026, discutir cidadania digital deixa de ser uma escolha pedagógica e passa a ser um direito dos estudantes. Mais do que aprender a usar ferramentas, trata-se de compreender criticamente como as tecnologias atravessam a vida social, cultural, política e econômica.
A seguir, reunimos sete motivos centrais para que professores se aprofundem nesse tema em 2026, todos comentados por Guilherme Alves, gerente de projetos da SaferNet Brasil, organização que é referência na promoção dos direitos humanos na internet.
1. Para formar estudantes críticos e responsáveis no uso das tecnologias
Hoje, crianças e adolescentes são as faixas etárias que, proporcionalmente, mais utilizam a internet no Brasil, segundo pesquisa da Cetic.br: 93% da população de 9 a 17 anos é usuária, o que representa atualmente certa de 25 milhões de crianças e adolescentes. Em muitas escolas, o desafio já não é apenas o acesso, mas a qualidade desse uso. Nesse contexto, a cidadania digital se conecta diretamente ao papel da escola na formação cidadã dos estudantes.
“A cidadania é um princípio da educação, e a escola tem o papel de preparar os estudantes para vivenciar a vida em sociedade, que hoje é profundamente mediada pelas tecnologias”, aponta Guilherme.
Ensinar cidadania digital é reconhecer que as relações sociais também acontecem no ambiente digital, e que formar sujeitos críticos nesse espaço é parte indissociável da educação integral.
2. Para fortalecer o combate à desinformação
A circulação de fake news, conteúdos manipulados e informações enganosas se intensificou nos últimos anos, especialmente com o avanço da inteligência artificial. Diante desse cenário, as escolas têm um papel estratégico na construção de uma postura crítica.
“A gente vivencia uma desordem informacional. Nos mesmos ambientes onde circulam informações de qualidade, também circulam desinformações, e isso não tende a diminuir”, relembra Guilherme.
Mais do que identificar se algo é falso ou verdadeiro, a cidadania digital contribui para que os estudantes desenvolvam critérios de análise, reflexão e leitura crítica das informações que consomem diariamente.
3. Para promover segurança e proteção no ambiente digital
O ambiente on-line também expõe crianças e adolescentes a riscos como cyberbullying, exploração, discursos violentos e práticas abusivas. Trabalhar cidadania digital é fortalecer uma cultura de proteção e de direitos.
O especialista observa que falar de cidadania digital também significa falar de proteção de crianças e adolescentes. “O Brasil tem um arcabouço legal muito sólido nesse sentido (o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), que hoje também se estende ao mundo virtual (ECA Digital).”
Nesse contexto, a escola pode ajudar os estudantes a reconhecer situações de risco, refletir sobre seus próprios usos e construir estratégias de autoproteção e cuidado coletivo no ambiente digital.
A educação digital e midiática foi instituída como elemento curricular obrigatório a partir de 2025, com implementação efetiva nas redes de ensino prevista para março de 2026. Essa mudança é sustentada por políticas públicas, como o ECA Digital, a Lei 15.100/2025 e a BNCC Computação. |
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4. Para desenvolver competências socioemocionais no mundo on-line
Atualmente, conflitos, relações, pertencimento e identidade também se constroem nas redes. A cidadania digital amplia o desenvolvimento socioemocional ao incluir o ambiente virtual como espaço legítimo de aprendizagem.
“Os ambientes on-line muitas vezes não são apropriados nem para adultos, quanto mais para crianças e adolescentes. Por isso, olhar para essas experiências a partir da vivência deles é fundamental”, acredita Guilherme.
Valorizar o protagonismo dos estudantes, suas experiências e culturas digitais é um caminho potente para fortalecer autonomia, empatia e autorregulação (a capacidade de gerenciar o próprio comportamento e as emoções diante do uso de ferramentas digitais).
5. Para preparar os estudantes para o mundo do trabalho
As tecnologias transformaram profundamente as relações de trabalho. Preparar os estudantes para esse cenário exige uma formação que vá além do uso técnico das ferramentas.
“Mais do que se adaptar a um mundo do trabalho em profunda transformação, precisamos falar sobre a possibilidade de criar outras formas de trabalho e outras tecnologias que possam servir aos interesses públicos, como o combate à desigualdade e às opressões”, afirma.
A cidadania digital contribui para formar sujeitos capazes de compreender tanto as oportunidades quanto os riscos do mundo do trabalho digitalizado, atuando de forma ativa, ética, criativa e consciente.
6. Para estimular a participação ativa e responsável na sociedade
O debate público, o acesso à cultura e o exercício da cidadania passam cada vez mais pelo digital. A escola pode mostrar que as tecnologias também são ferramentas de participação e transformação social.
“A formação em educação digital é um direito. É uma formação para a vida, para as relações sociais, familiares, culturais e para o exercício da cidadania ativa.” Ao superar uma visão utilitária da tecnologia, a cidadania digital ajuda os estudantes a se perceberem como sujeitos ativos, e não apenas consumidores de conteúdo.
7. Para alinhar a prática docente às diretrizes nacionais e às demandas contemporâneas
As diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) reforçam a Educação Digital como dimensão estruturante do currículo. O desafio agora é transformar o que está no papel em prática cotidiana nas escolas.
“O grande desafio de 2026 é fazer com que essa obrigatoriedade vire prática e passe a fazer parte da cultura escolar. E a formação continuada dos professores é um pilar fundamental desse processo”, afirma Guilherme.
Nesse cenário, ensinar cidadania digital fortalece o papel do professor como mediador, articulando currículo, a realidade dos estudantes e as demandas contemporâneas da educação.
Curso gratuito “Cidadania Digital”
A plataforma Escolas Conectadas acaba de lançar o curso “Cidadania Digital”. A formação é gratuita e mostra a importância da cidadania digital dentro e fora das escolas, e incentiva o uso seguro, consciente e responsável da internet entre educadores e estudantes.
Possibilita ainda que os educadores disponham de recursos e inspirações para abordar a temática da cidadania digital, conforme a sua área de conhecimento e em projetos interdisciplinares.
Se inscreva no curso “Cidadania Digital”: https://bit.ly/CursoCidadaniaDigital
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