Em 2026, a mobilização ganha ainda mais relevância diante do crescimento de casos de violência digital.
Como a escola deve agir quando uma estudante tem sua imagem manipulada por ferramentas de Inteligência Artificial? Ou quando uma "brincadeira" nas redes sociais se transforma em violência de gênero? Essas situações, que há pouco tempo pareciam distantes da realidade escolar, já fazem parte do cotidiano de muitas instituições de ensino.
Em um contexto em que a violência contra meninas e mulheres ganha novas formas e maior alcance no ambiente digital, a campanha Agosto Lilás convida educadores a refletirem sobre o papel da escola não apenas no acolhimento das vítimas, mas também na prevenção e na formação de estudantes para uma convivência ética, respeitosa e segura dentro e fora das telas.
Segundo uma pesquisa recente, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, 54% das mulheres que se relacionam com homens afirmam já ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida. Ao mesmo tempo, um levantamento da SaferNet Brasil mostra que a IA já está sendo utilizada para produzir imagens falsas de nudez envolvendo estudantes e professoras.
A violência mudou de ferramenta, não de natureza
Para Juliana Cunha, diretora da SaferNet Brasil, a violência digital não representa um problema separado da violência de gênero, mas uma nova forma de manifestação do mesmo fenômeno.
"A vida das mulheres hoje não separa o 'dentro' e o 'fora' da tela. A violência digital é a mesma violência baseada em gênero que historicamente as atinge, mas com alcance e permanência ainda maior”, comenta.
Um estudo produzido pela SaferNet identificou casos de deepfakes sexuais em escolas de 10 estados brasileiros. O levantamento, que inicialmente havia encontrado 72 vítimas, já contabiliza 173 pessoas afetadas, entre alunas e professoras. Em todos os casos identificados, as vítimas eram mulheres.
Segundo Juliana, a IA reduziu drasticamente as barreiras para esse tipo de violência. "Hoje qualquer adolescente com um celular consegue fabricar, em poucos minutos, uma imagem falsa de nudez de uma colega a partir de uma foto publicada nas redes sociais."
Mais do que uma questão tecnológica, ela explica, trata-se de uma violência baseada em relações de poder e desigualdade de gênero, agora potencializada por ferramentas cada vez mais acessíveis. “A violência de gênero não mudou de natureza. Ela continua sendo sobre poder e sobre o corpo da mulher, mas ganhou uma ferramenta que a torna mais fácil de produzir, mais difícil de conter e capaz de atingir qualquer pessoa.”
Para além da punição
Embora os casos estejam crescendo, muitas escolas ainda não possuem protocolos ou formação para lidar com esse tipo de situação. “Observamos que muitas instituições reagem preocupadas com a própria reputação e tentam abafar o caso. Ou, no outro extremo, partem direto para a punição sem acolher a vítima. Nenhum dos dois caminhos protege as estudantes.”
Para a especialista, a prioridade deve ser o acolhimento da vítima, sem julgamentos ou culpabilização. Também é importante preservar evidências, orientar a família, acionar os órgãos competentes e oferecer um trabalho educativo com os autores, que muitas vezes também são adolescentes.
Ela destaca que não é razoável esperar que professores resolvam sozinhos situações para as quais nunca receberam preparação. "As redes de ensino precisam oferecer protocolo e formação dentro desse tema aos educadores."
Como abordar violência de gênero digital na escola
O Agosto Lilás pode ser um importante ponto de partida para discutir respeito, consentimento e cidadania digital com toda a comunidade escolar. Mas, para que essas conversas tenham impacto, elas precisam fazer parte do cotidiano da escola.
Entre as recomendações da SaferNet Brasil estão:
- Integrar o tema ao projeto pedagógico durante todo o ano;
- Investir na formação de professores e equipes escolares;
- Definir protocolos de acolhimento e encaminhamento antes que um caso aconteça;
- Trabalhar consentimento, responsabilidade e respeito com meninas e meninos, sem culpabilizar as vítimas;
- Envolver as famílias nas ações de conscientização.
Formação para uma cultura de respeito
Preparar estudantes para uma convivência ética, segura e responsável no ambiente digital é um desafio permanente das escolas – e não apenas durante campanhas como o Agosto Lilás. "Cidadania digital de verdade é formar pessoas que entendem o impacto dos seus atos no ambiente digital, e isso precisa vir junto de uma educação sobre relações de gênero”, defende Juliana.
O curso gratuito Cidadania Digital, da plataforma Escolas Conectadas, oferece subsídios para que educadores desenvolvam essas competências em sala de aula, abordando temas como convivência on-line, segurança, direitos, responsabilidades, participação cidadã e uso crítico das tecnologias.
Ao fortalecer a educação para a cidadania digital, as escolas contribuem para prevenir diferentes formas de violência, promover o respeito às diferenças e construir ambientes mais seguros para todos.
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