Confira entrevista exclusiva com autora do novo curso da plataforma, “Aprendizagem mão na massa conectada à BNCC Computação”
A chegada da BNCC Computação às escolas brasileiras tem provocado uma mudança importante no cotidiano de professores de todas as etapas de ensino. Mais do que um novo conjunto de diretrizes, o documento traz o desafio e a oportunidade de integrar o pensamento computacional, a cultura digital e o entendimento do mundo conectado às práticas pedagógicas de maneira significativa. Mas como transformar essas orientações em experiências reais de aprendizagem?
É justamente nesse ponto que iniciativas de formação continuada fazem a diferença. O novo curso gratuito da plataforma Escolas Conectadas, “Aprendizagem mão na massa conectada à BNCC Computação”, nasce com a proposta de apoiar educadores nessa transição, trazendo abordagens práticas, metodologias ativas e o uso pedagógico de tecnologias (incluindo Inteligência Artificial) – de forma acessível e aplicável ao dia a dia escolar.
Para entender melhor os caminhos possíveis, os desafios e as potências dessa transformação, conversamos com a professora Débora Garófalo, autora do curso e uma das principais referências no tema no Brasil. No início de 2026, ela foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo por desenvolver um trabalho de robótica com sucata e usar as redes sociais para ampliar o aprendizado dentro e fora da sala de aula.
Confira a entrevista a seguir!
De onde surgiu a iniciativa de transformar sua experiência em sala de aula em um curso online?
A iniciativa nasceu da própria prática. Ao longo dos anos em sala de aula, fui estruturando metodologias que integravam tecnologia, pensamento computacional e resolução de problemas reais, sempre com foco no protagonismo dos estudantes. Com o tempo, percebi que essas experiências poderiam apoiar outros educadores, especialmente aqueles que ainda se sentem inseguros para trabalhar com tecnologia. Transformar isso em um curso gratuito e online, de 35 horas, é uma forma de ampliar o alcance desse conhecimento e democratizar o acesso a uma formação que, muitas vezes, ainda é restrita.
Por que esta formação é importante para o educador brasileiro hoje, independentemente de sua área de atuação ou componente curricular?
Hoje, não estamos mais falando de tecnologia como algo complementar, mas como uma linguagem essencial. O educador, independentemente da área, precisa compreender como desenvolver competências como pensamento crítico, resolução de problemas e cultura digital. Essa formação contribui justamente para isso: ela não é sobre “ensinar tecnologia”, mas sobre ensinar melhor com o apoio dela. Em um país com tantas desigualdades educacionais, formar professores para esse novo cenário é estratégico.
A BNCC Computação é uma novidade nas escolas brasileiras em 2026. Qual é a sua avaliação sobre as diretrizes do documento e como elas foram incorporadas à estrutura do curso?
A BNCC Computação é um avanço importante porque organiza, pela primeira vez, competências relacionadas à cultura digital e ao pensamento computacional de forma estruturada. No curso, essas diretrizes foram incorporadas de maneira prática, conectando os eixos do documento (como pensamento computacional, mundo digital e cultura digital) a atividades aplicáveis no cotidiano escolar. A ideia foi traduzir o documento em ação, ajudando o professor a entender “como fazer”, e não apenas “o que está previsto”.
O curso privilegia uma abordagem bem prática e mão na massa. Por que considera isso importante? O que você destaca sobre o curso nesse sentido?
A aprendizagem acontece quando o professor experimenta, testa, erra e refaz. Por isso, a abordagem “mão na massa” é central. Não basta falar sobre inovação ou metodologias ativas, é preciso vivenciá-las.
Ao longo das 35 horas de formação, os educadores são convidados a desenvolver projetos reais, aplicáveis ao seu contexto, com foco em resolução de problemas, pensamento computacional e uso crítico das tecnologias. O grande diferencial é justamente esse: o professor não sai apenas com repertório teórico, mas com práticas estruturadas, prontas para serem levadas à sala de aula, respeitando a realidade da escola pública brasileira.
Diante da hiperconectividade dos alunos, como o curso aborda a urgência de levar para a sala de aula um debate sobre cidadania digital e segurança no ambiente virtual?
A hiperconectividade já faz parte da vida dos estudantes. Eles estão o tempo todo em ambientes digitais, produzindo, consumindo e compartilhando informações. Ignorar isso na escola é perder uma grande oportunidade educativa. Por isso, no curso, tratamos a cidadania digital e a segurança on-line como temas urgentes e transversais.
A proposta não é abordar esses assuntos apenas de forma teórica ou pontual, mas integrá-los às práticas pedagógicas. Ao longo da formação, os professores desenvolvem atividades que discutem, por exemplo, uso responsável das redes, privacidade de dados, combate à desinformação e respeito nas interações virtuais. Tudo isso conectado a projetos reais, dentro da lógica “mão na massa”.
Também reforçamos o papel da escola na formação crítica dos estudantes, para que eles não sejam apenas usuários da tecnologia, mas sujeitos conscientes, éticos e responsáveis no ambiente digital. Em um cenário de tantos riscos e possibilidades, educar para o uso seguro e crítico das tecnologias é, hoje, parte fundamental do processo educativo.
Como você enxerga o impacto da formação continuada no desenvolvimento do educador e qual o papel estratégico do ensino a distância nesse contexto?
A formação continuada hoje não é mais opcional. Ela é essencial. Vivemos um cenário de rápidas transformações, especialmente com a inserção da tecnologia e das diretrizes como a BNCC Computação, e isso exige que o educador esteja em constante atualização.
Nesse contexto, o ensino a distância (EAD) tem um papel estratégico porque amplia o acesso e democratiza a formação. Ele permite que professores de diferentes regiões do país, muitas vezes sem acesso a formações presenciais de qualidade, possam se desenvolver no seu tempo e ritmo.
Quando bem estruturado, como foi o caso desse curso, o EAD consegue unir teoria, prática e acompanhamento, gerando impacto real na prática pedagógica e, consequentemente, na aprendizagem dos estudantes.
Após uma trajetória de sucesso lecionando em sala de aula e também em programas de formação presenciais, qual a sensação de também passar a formar professores de maneira virtual?
É uma experiência muito potente e, ao mesmo tempo, desafiadora. No presencial, temos a troca imediata, o olhar, a interação direta. No virtual, precisamos pensar em estratégias que mantenham o engajamento e promovam conexão mesmo à distância.
Por outro lado, o alcance é muito maior. Formar professores virtualmente me permitiu chegar a educadores de todo o Brasil, com diferentes realidades e contextos, o que enriquece muito o processo.
A sensação é de ampliar impacto. É saber que aquela prática, que começou em uma sala de aula, hoje pode inspirar e transformar muitas outras, em diferentes territórios.
Com premiações e reconhecimentos recentes em sua carreira, o que você identifica como o diferencial que fundamentou sua evolução profissional?
Acredito que o principal diferencial foi nunca me distanciar da prática e da realidade da escola pública. Tudo o que construí na minha trajetória está profundamente conectado ao chão da escola, aos desafios reais dos estudantes e professores.
Além disso, sempre busquei inovar com propósito, não pela tecnologia em si, mas pelo potencial de transformar a aprendizagem, desenvolver protagonismo e ampliar oportunidades para os alunos.
Outro ponto importante é o compromisso com a formação de outros educadores. Compartilhar conhecimento, formar pares e construir coletivamente fortalece toda a rede. No fim, essa combinação entre prática, inovação com sentido e colaboração é o que sustenta essa trajetória.
Comentários
Escreva um comentário