Terceira matéria especial sobre a implementação da BNCC Computação aborda a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental
Quando se fala em computação na escola, muitas pessoas ainda imaginam os alunos no laboratório de informática, diante de telas, aprendendo programação ou utilizando equipamentos sofisticados. Mas, na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a proposta da BNCC Computação segue um caminho diferente: antes de aprender a usar tecnologias, os estudantes são convidados a desenvolver formas de pensar, criar, experimentar e resolver problemas.
É nessa etapa que se constroem as bases do pensamento computacional, por meio de experiências que envolvem observação, criatividade, colaboração, reconhecimento de padrões e organização de sequências. Muitas vezes, tudo isso acontece longe dos computadores.
Essa é a realidade vivida pelo professor Ary Potiguara, do Grupo Fênix de Educação, em São Caetano do Sul (SP), onde atua na Educação Infantil e também com atividades maker nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Em suas aulas, a computação nasce do brincar, da construção de projetos e da experimentação prática.
Mas, afinal, o que é a BNCC Computação?
A BNCC Computação orienta as escolas a desenvolver competências relacionadas ao pensamento computacional, à cultura digital e à compreensão das tecnologias ao longo de toda a educação básica. Na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, porém, essas aprendizagens acontecem de forma concreta, lúdica e conectada ao desenvolvimento infantil.
Na prática, isso significa estimular as crianças a observar padrões, organizar sequências, testar hipóteses, criar soluções e aprender com os erros. É justamente esse movimento que Ary busca promover em suas aulas. "A intenção é trazer para os estudantes, antes de mais nada, a alfabetização lógica e criativa", explica o professor.
A computação começa no brincar
Uma das principais particularidades da implementação da BNCC Computação nessa etapa de ensino é que a aprendizagem acontece por meio das experiências corporais, da imaginação e das brincadeiras.
Na Educação Infantil, Ary trabalha conceitos fundamentais do pensamento computacional utilizando o próprio corpo das crianças, além de jogos e construções manuais. "Nesta etapa, o foco é a percepção. Trabalhamos noções de espaço, lateralidade e sequência (algoritmos) através do corpo, do brincar e da construção de brinquedos", conta o educador.
Essa abordagem mostra que a computação não começa com códigos ou dispositivos digitais, mas com a capacidade de organizar ideias, compreender relações e construir estratégias para resolver problemas. Já nos anos iniciais do Ensino Fundamental, essas experiências evoluem para a elaboração de projetos e protótipos, ampliando gradualmente a complexidade dos desafios propostos aos estudantes.
Muito além das telas
Outra característica importante dessas etapas são as chamadas atividades desplugadas – aquelas que não dependem de computadores ou dispositivos digitais para acontecer. Segundo Ary, elas são a base de todo o processo de aprendizagem.
"As crianças gostam muito de atividades desplugadas, porque passam pela experiência da montagem individual, fazendo os projetos acontecerem de forma prática. Na minha experiência pedagógica, o desplugado é o alicerce."
Entre as atividades desenvolvidas pelo professor estão a construção de carros movidos a bexiga de ar, mãos mecânicas feitas de papelão, circuitos simples com placas Makey Makey (um kit de invenções simplificado que permite transformar vários objetos do cotidiano em teclas de teclado ou botões de mouse para computador) e desafios de construção livre com peças de montar.
Mais do que ensinar o funcionamento de uma ferramenta específica, essas experiências ajudam os estudantes a desenvolver raciocínio lógico, criatividade, planejamento e resolução de problemas.
Quando a tecnologia faz sentido
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o computador não é o ponto de partida do processo. Na experiência de Ary, a tecnologia só entra em cena depois que as crianças já compreenderam a lógica do desafio e construíram suas ideias de forma concreta.
"Na prática, a tecnologia entra como um meio para expressar uma ideia que já foi maturada fisicamente. Se eles conseguem explicar a lógica no papel ou no corpo, a transição para o computador é orgânica."
Essa abordagem está alinhada aos princípios da BNCC Computação, que propõe uma evolução gradual das competências digitais a partir da realidade e do estágio de desenvolvimento dos estudantes.
O erro faz parte da aprendizagem
Outra contribuição importante do pensamento computacional para a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental está relacionada à forma como as crianças aprendem a lidar com desafios e frustrações.
Nas atividades desenvolvidas por Ary, o erro não é encarado como fracasso, mas como parte do processo de descoberta. "O que os move é a autoria e o erro seguro", afirma o professor. Segundo ele, quando os estudantes percebem que podem testar soluções, revisar caminhos e fazer ajustes sem medo de errar, tornam-se mais confiantes para criar e experimentar.
Essa mudança também aparece na forma como enfrentam problemas. "Antes, um erro no desenho ou na construção era motivo de frustração e abandono. Com o pensamento computacional, eles entendem que o erro é apenas um dado a mais no processo."
Os desafios da implementação
Apesar das inúmeras possibilidades, implementar a BNCC Computação nessa etapa também exige mudanças de perspectiva.
Para Ary, "o maior desafio é a ansiedade pelo resultado imediato, tanto dos alunos quanto da escola". Ele lembra que, no início, a instituição tentou ensinar conceitos de programação de forma abstrata, diretamente na lousa e depois nos computadores. O resultado? Estudantes desinteressados.
Hoje, sua estratégia é partir de problemas concretos e significativos para as crianças. "Eu nunca começo pela ferramenta. Começo trazendo problemas reais, em que os estudantes precisam encontrar formas de solucionar através de um projeto."
Formando pensadores para o futuro
Para o professor, um dos equívocos mais comuns sobre a BNCC Computação é acreditar que o seu objetivo é formar programadores desde a infância. Na verdade, o foco está no desenvolvimento de competências que acompanharão os estudantes ao longo de toda a sua trajetória escolar e pessoal.
"Isso não é sobre formar programadores, é sobre formar pensadores", resume Ary. Ao estimular a curiosidade, a criatividade, a autonomia e a capacidade de resolver problemas, a BNCC Computação ajuda as crianças a compreender melhor o mundo em que vivem, cada vez mais permeado por tecnologias, algoritmos e informações digitais.
Como destaca o professor, quando o pensamento computacional é trabalhado por meio da arte, do brincar e da cultura maker, as crianças deixam de ser apenas consumidoras de tecnologia e passam a desenvolver as ferramentas necessárias para criar, questionar e transformar a realidade ao seu redor.
Especial BNCC Computação na prática
Esta reportagem faz parte de uma série especial da plataforma Escolas Conectadas sobre a implementação da BNCC Computação na educação básica. Já foram publicadas reportagens sobre os desafios da implementação no Ensino Médio e também nos anos finais do Ensino Fundamental.
Ao longo dos próximos conteúdos, serão apresentadas experiências e reflexões voltadas à gestão escolar e às redes de ensino, abordando estratégias de formação docente, infraestrutura, apoio pedagógico e caminhos possíveis para transformar a BNCC Computação em experiências concretas de aprendizagem nas escolas brasileiras.
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Para apoiar educadores e gestores na implementação prática da BNCC Computação, a plataforma Escolas Conectadas oferece formações gratuitas e on-line voltadas ao desenvolvimento de competências digitais e metodologias inovadoras.
Entre os destaques estão o curso BNCC Computação: Fundamentos e Práticas, que apresenta as bases da normativa, além de possibilidades de aplicação nas escolas, e o curso Aprendizagem mão na massa conectada à BNCC Computação, com foco em práticas pedagógicas, metodologias ativas e atividades conectadas ao pensamento computacional.
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