“365 dias de Consciência Negra” reúne fotografias, rodas de conversa e atividades culturais para valorizar identidades e enfrentar preconceitos.
Em 2018, uma conversa na biblioteca de uma escola pública do Distrito Federal mudou a maneira como a professora Margareth Alves pensava em trabalhar a Consciência Negra. Uma estudante contou que vinha sofrendo racismo por causa do cabelo. Ao ouvi-la, Margareth começou a pensar em uma forma de fortalecer a autoestima dos jovens negros e ampliar o espaço que ocupavam dentro da escola.
A primeira ideia foi criar banners com fotografias de pessoas negras da comunidade escolar e expô-los nos corredores. Mas a proposta ganhou outra dimensão quando Margareth conversou com a diretoria sobre a importância de não restringir o tema ao mês de novembro. Surgiu, então, o nome “365 dias de Consciência Negra”, que traduzia o princípio da iniciativa: a valorização da identidade negra e o enfrentamento do racismo precisam fazer parte do cotidiano escolar.
Uma biblioteca como espaço de reconhecimento
Professora que atua na biblioteca do Centro Educacional (CED) 310, em Santa Maria, no Distrito Federal, Margareth não imaginava até onde aquela primeira ideia poderia chegar. As fotografias foram apenas o primeiro passo de um projeto que, ao longo dos anos, passou a incorporar rodas de conversa, apresentações artísticas, visitas culturais e atividades pedagógicas.
Para tirar a proposta do papel, ela encontrou um parceiro dentro da própria escola: um estudante negro que já trabalhava com fotografia desde criança. Ela o convidou para registrar pessoas negras em um espaço que considerava especialmente simbólico. “A biblioteca tem conhecimento, e conhecimento é poder”, explica, ao recordar a escolha do local.
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A proposta era apresentar pessoas negras ocupando um espaço associado à produção e à circulação do conhecimento. Em vez de apenas abordar as situações de discriminação enfrentadas pelos estudantes, a iniciativa também evidenciava suas potencialidades, seus talentos e suas possibilidades de realização.
O resultado das fotografias surpreendeu Margareth. Mas a experiência também trouxe uma constatação: a exposição, por si só, não seria suficiente para sustentar a proposta de trabalhar a Consciência Negra durante todo o ano.
Valorização da identidade negra
A partir daí, o projeto começou a se expandir. As imagens circularam por outros espaços, e a professora organizou rodas de conversa com convidados que compartilhavam suas histórias e conhecimentos. Em vez de encontros em que os estudantes apenas ouviam uma palestra, ela buscava criar oportunidades para que também fizessem perguntas, expressassem opiniões e relacionassem os assuntos discutidos às próprias experiências.
A valorização da identidade negra passou a ser trabalhada por diferentes linguagens. Entre as iniciativas esteve um desfile pedagógico que propunha romper com concursos de beleza baseados em padrões únicos de aparência. A ideia era reconhecer a diversidade de características, histórias e expressões culturais dos estudantes negros, sem reduzi-los a estereótipos.
Cantores, artistas e outros convidados também passaram a participar das atividades. Para Margareth, apresentar a produção artística e profissional de pessoas negras é uma ação essencialmente antirracista: permite que os jovens encontrem referências, descubram novas possibilidades e se reconheçam em espaços nos quais nem sempre se veem representados.
Do projeto à rotina pedagógica
Com o passar dos anos, o “365 dias de Consciência Negra” incorporou novas propostas e buscou formas de continuar presente na escola. Durante a pandemia de Covid-19, parte das atividades foi realizada on-line. Mais tarde, ganhou novos desdobramentos pedagógicos e, em 2023, passou a integrar uma eletiva.
A mudança aproximou ainda mais o projeto do cotidiano escolar, com atividades envolvendo músicas, vídeos e outros conteúdos relacionados à temática racial. Entre as ações incorporadas estão cine-debates, nos quais os estudantes assistem a filmes e depois discutem as questões relacionadas à população negra. Visitas a quilombos, apresentações teatrais e produções audiovisuais ampliaram as possibilidades de aprendizagem.
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A trajetória mostra como uma iniciativa pode ganhar continuidade quando deixa de depender de uma atividade isolada e passa a dialogar com diferentes áreas do conhecimento e parceiros da comunidade escolar.
Isso não significa, porém, que o trabalho seja simples. Margareth ressalta que uma escola não deixa de reproduzir o racismo apenas porque desenvolve um projeto sobre o tema. A cada ano, chegam novos estudantes, com experiências distintas, e é necessário retomar conversas, desconstruir preconceitos e encontrar novas formas de abordar a questão.
Um dos aprendizados mais importantes foi reconhecer que situações frequentemente tratadas como brincadeiras podem reproduzir violência racial. Ao longo das rodas de conversa, a professora percebeu que alguns estudantes precisavam compreender por que determinadas falas e atitudes machucam e como podem contribuir para a discriminação.
A proposta não é apenas apontar o erro, mas promover reflexão e construir outras formas de convivência. Para isso, ouvir os jovens e permitir que participem das discussões são partes fundamentais do processo.
Na visão de Margareth, a valorização da identidade negra não diz respeito somente aos estudantes negros, mas a toda a comunidade escolar. O objetivo é contribuir para uma sociedade em que as pessoas tenham oportunidades de desenvolver seus talentos e ocupar diferentes espaços. “O que falta para o negro não é talento, não é inteligência. É oportunidade”, afirma.
A experiência do projeto não apresenta uma solução definitiva para o racismo. Antes disso, mostra como uma iniciativa pode se renovar ao longo do tempo, criar espaços de participação e estimular a comunidade escolar a rever práticas que muitas vezes passam despercebidas.
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