O trabalho socioemocional precisa começar já na construção do currículo

31/03/22

Num mundo em constante transformação, as escolas precisam adaptar suas metodologias de ensino, até mais importantes do que os tradicionais conteúdos curriculares, as competências socioemocionais tornam-se recursos imprescindíveis para formar cidadãos que estarão prontos para os desafios do amanhã, sejam eles quais forem.

O curso Currículo, saberes e competências socioemocionais vem na esteira do curso Educação socioemocional: aprendizagens-chave como o segundo passo desse itinerário pedagógico que visa capacitar professores e gestores na construção de currículos que resgatam e valorizam o lado mais humano da educação.

Nesta matéria, você conhecerá depoimentos de professores que estão transformando a sala de aula e terá acesso a uma entrevista exclusiva com Maria Teresa Moraes Nori e María del Carmen Chude, duas das autoras do curso (criado em conjunto com a professora Patrícia Franco, que infelizmente não pôde participar da entrevista, o Instituto Lotus e a Testo Digital Projetos e Desenvolvimento Educativo).

Impactos positivos na prática

Na busca pelo desenvolvimento integral dos alunos, os professores precisam às vezes se desdobrar em diferentes papéis. Professores do século XXI devem abrir espaço para que os alunos se tornem protagonistas do próprio aprendizado.

Conforme conta a professora Mônica Lobo de Athayde, participante da Plataforma Escolas Conectadas, “nāo podemos esquecer que a Educação é uma atividade relacional com dinâmica e características próprias que precisam ser conhecidas e devidamente trabalhadas”. Por se constituir de relações entre indivíduos, o processo de ensino depende não apenas de capacidades cognitivas, mas também das emoções de cada participante. “As reflexões propostas pelo curso ‘Educação socioemocional: aprendizagens-chave’ me ajudaram a ter uma visão mais ampla sobre a relação das questões emocionais com o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos”, comenta Mônica.

As ferramentas socioemocionais são tão poderosas que podem ser aplicadas em diversos contextos. O professor Carlos Francisco da Silva é outro educador que teve uma experiência extremamente positiva após participar do curso Educação socioemocional: aprendizagens-chave. Ele levou seus conhecimentos para uma sala de aula de trânsito. Lecionando dentro da autoescola, conta que pôde “desenvolver um dos pontos interessantes das cinco competências do modelo Casel, utilizando informações referentes às questões do bloqueio que as pessoas tinham com o medo de fazer prova”. O professor conseguiu reduzir em pouco tempo o índice de reprovações no teste final.

Transformação começa no currículo

Não é à toa que o segundo curso deste eixo se chama “Currículo, saberes e competências socioemocionais”: o trabalho começa muito antes de os alunos chegarem na sala de aula. “Alguma vez você já se perguntou ‘para que serve isso que estou estudando?’ quando estava na escola?”, provoca a professora Maria Teresa Moraes Nori. Para ela, a maior vantagem de pensar um currículo por competências é que se parte da demanda do contexto, o que leva à inevitável oferta de experiências de aprendizagem que estão relacionadas à vida real do aluno. As metodologias ativas necessariamente atribuem ao estudante o protagonismo: ele vai enfrentar desafios – simulados ou reais – que têm a ver com a própria vida e vai acionar todas as suas competências cognitivas, socioemocionais e psicomotoras para resolver esses problemas.

A ideia de planejamento se aplica não apenas à construção do currículo, mas ao longo do ano letivo. Como conta a professora Caroline Camargo, que participou do curso ‘Educação socioemocional: aprendizagens chave’ e tem estudado as dimensões socioemocionais da educação, as novas ferramentas têm auxiliado em muitos momentos da prática pedagógica. “Por mais difícil que seja quebrar paradigmas quando se fala em educação, todos os dias ao enfrentar momentos desafiadores em sala de aula, tento me lembrar das estratégias aprendidas no curso e aplicá-las em minha rotina. Também uso muito das reflexões apresentadas no curso quando faço meu planejamento semanalmente, sempre avaliando quais práticas estão tendo resultado e quais eu preciso modificar”. É assim, sempre de olho nas demandas dos estudantes, que a sala de aula se transforma num espaço de aprendizado mútuo e crescimento para todos. 

Bem resumiu a professora María del Carmen: “a dimensão socioemocional não é nova, todo educador conhece e tem no coração a necessidade de desenvolver a formação de valores, de atitudes, e permitir que se construa um alicerce fundamental para a existência humana que é a capacidade de relacionar-se: isso está no DNA da educação”.

A importância das relações já se nota nessa primeira etapa de organização do currículo. Professores e gestores fazem escolhas em conjunto, partindo da pergunta sobre que geração queremos formar e, ao pensar coletivamente, dividem a responsabilidade. Assim, começa-se a se criar na escola um ambiente de parceria e cooperação. A conclusão de Maria Teresa é que “esse ambiente gera bem-estar e, mais do que isso, gera entusiasmo, você vem trabalhar com uma grande alegria porque sabe que seu trabalho tem sentido, e você vê resultado na prática. Quando você trabalha com competências que exigem prática, e você vê o exercício na prática, há um prazer imenso, é a maior alegria que se pode ter. Isso por si só alivia a carga negativa de decepção e desânimo que se percebe em muitos professores. Isso acontece mesmo, não estou sonhando, sou muito pragmática”.

Para aprofundar os fundamentos do curso Currículo, saberes e competências socioemocionais, confira abaixo o que María del Carmen Chude e Maria Teresa Nori têm a dizer. Depois, deixe seu comentário!

Parte dos educadores que atuam hoje tiveram sua formação no século XX, mas precisam se adaptar às demandas do século atual. Quais as principais novas características da educação do século XXI e voltada para o futuro?

MARÍA DEL CARMEN: Como diria Edgar Morin em suas recomendações para a escola, o educador não pode pretender resolver todos os problema do mundo, não pode carregar, como Atlas carregava na cabeça, o peso de todos os problemas do mundo, mas o educador e a escola são essenciais para resolvê-los, principalmente assumindo uma postura de procurar não o melhor dos mundos, mas um mundo melhor a cada dia. Há uma grande diferença, e muita gente às vezes até perde a esperança porque idealiza esse mundo melhor, mas o importante é fazer algum bem neste mundo, e sentir-se parceiro de outros seres humanos que estão construindo um mundo mais solidário e mais pacífico, dois elementos que carregamos sempre no coração, na época que for. Os educadores, no século XX, já traziam essa esperança, agora é importante que, ao pensar nas ferramentas para fazer acontecer essa educação, em função das mudanças na proposta curricular, eles lembrem que as estratégias didáticas precisam também mudar.

TERESA NORI: Acho que a María del Carmen falou muito bem. O professor precisa turbinar a caixa de ferramentas e agir com mais humildade. Havia uma cultura do voo solo, quando o professor era o showman, o protagonista, pois tudo se resumia a uma questão de dar conteúdo. Isso acabou, não é por aí. O professor é aquele que ajuda o outro a crescer, com a intenção constante de deixar o outro cada vez mais independente. O Reuven Feuerstein diz algo maravilhoso, que a maior ambição do mediador é tornar-se obsoleto na vida do aluno. E no mundo que requer solidariedade, paz, harmonia, bom senso e juízo, é necessário que todos nós colaboremos, pois a educação é um trabalho de equipe, formada pelos professores, diretores, coordenadores, faxineiros, todos os funcionários, além da família e do prefeito, governadores, vereadores e assim por diante. É um trabalho coletivo, porque é um processo de socialização sistematizado e intencional.

O curso traz algumas propostas de exercícios práticos para serem desenvolvidos com os estudantes. Quais têm sido os maiores desafios que os estudantes encontram na hora de conviver com a comunidade escolar e mesmo com a comunidade externa? E como os exercícios os ajudam a encontrar melhores caminhos de convivência?

TERESA NORI: Os exercícios aproximam as pessoas das situações desafiadoras para as quais devem se preparar de modo que possam enfrentá-las com segurança e autonomia quando estiverem de fato num processo social mais amplo. Os exercícios permitem que os alunos experimentem novas reações, novas respostas às situações simuladas de modo que, quando forem para a vida real lá fora, eles já tenham uma bagagem de vivência que permita lidar melhor com a realidade.

Estamos de novo falando da caixa de ferramentas, e é necessário se preparar para usar uma ferramenta. Por exemplo a empatia, é fácil ser empático? Será que somos empáticos o tempo todo? Empatia envolve sair de você, e nós somos seres muito autocentrados. Infelizmente, temos muitos exemplos por aí de pessoas autocentradas para quem o outro não existe, o que deixa a gente até desanimado, porque quando a gente vê aquele moleque chamando as mulheres vítimas de guerra de fáceis porque são pobres, isso é um absurdo. Zero de educação socioemocional para ele.

MARÍA DEL CARMEN: Os exercícios são importantes porque às vezes algum professor pode pensar que desenvolver ou promover aprendizagem de atitudes e valores significa copiar formas ou modelos de atuação já prontos, quando, na verdade, o que se promove nesse caso é que o ser humano, ao vivenciar determinadas situações do cotidiano, tenha a oportunidade de identificar como ele pode utilizar as habilidades socioemocionais ou quanto o outro as usa ou deixa de usá-las. Essa é a mediação que o professor vai fazer, jogando luz sobre como funcionamos no trabalho em equipe, por exemplo, que nos permite desenvolver maior clareza para identificar nossas fortalezas e desenvolver nossas habilidades: “preciso me expressar melhor, não disse bem o que sinto, preciso escutar mais”, por exemplo. 

Essa consciência sobre o que precisamos é que faz com que o trabalho cotidiano da escola ofereça um território magnífico de desenvolvimento de competências socioemocionais. Mas é muito importante que o professor esteja preparado para ajudar o aluno, não colocando modelos pré-prontos, mas desenvolvendo ações intencionalmente dirigidas para o exercício, permitindo que o sujeito construa sua própria caixa de ferramentas.

TERESA NORI: O exercício por si só ajuda, mas o truque está na mediação, no bom uso do exercício, o que requer que o professor estimule o processo de reflexão. Quando você faz um exercício, dramatização ou simulação, é necessário elaborar, pois é da fase de elaboração que saem os insights que permitem o autoconhecimento. Se estou numa situação simulada que suscita em mim uma reação que eu nem imaginava que pudesse ter um dia, isso é uma grande lição se eu puder refletir e entender o que aconteceu.

MARÍA DEL CARMEN: Essas oportunidades nas situações escolares serão muito exploradas no terceiro curso, mas já estou me antecipando.

O curso preza pelo bem-estar pessoal e coletivo, além de abordar os desafios de viver e conviver na sociedade do século XXI. Tendo em vista a sociedade polarizada e conflitiva em que vivemos hoje, qual a importância da escola na construção de um mundo mais empático e solidário?

TERESA NORI: A impressão que eu tenho é que se tivéssemos esse trabalho da educação socioemocional há mais tempo, não estaríamos vivendo no mundo polarizado e conflitivo que estamos. A escola tem que construir um currículo que transforme os ideais de cidadania e participação social em prioridades de tal modo que, inevitavelmente, ela vá trabalhar de forma equilibrada as dimensões cognitivas, socioafetivas e psicomotoras, a ponto de finalmente não deixar um setor ficar muito desenvolvido e outro pouquinho. De certo modo, até hoje demos muita ênfase na parte cognitiva, mas não no raciocínio, apenas na acumulação de conteúdo, de tal forma que as pessoas esqueceram da dimensão do respeito humano, da solidariedade, da convivência em si.

MARÍA DEL CARMEN: Muitas vezes os educadores sentem-se pouco reconhecidos no trabalho dessa dimensão socioemocional, muitas vezes eles sentem o peso dessa visão da escola de que ela será melhor quanto mais conteúdo descarregar. Mas o caso é que a formação integral está presente em todos os documentos legais que temos hoje para guiar a educação nacional, todos eles declaram há mais de vinte anos que precisamos atender essas três dimensões que a Teresa mencionou, e com a mesma prioridade entre todas.

É importantíssimo o currículo organizado por competências, pois ele nos permite reunirmos essas três dimensões em vez de trabalhá-las separadamente. E é importantíssimo a escola reconhecer e ter espaço e tempo em sala de aula para desenvolver os campos socioemocionais e socioafetivos. Gosto de falar na dimensão do afetivo, porque tudo que nos afeta vai nos levar a buscar uma mudança.


A primeira edição do curso Currículo, saberes e competências socioemocionais entrou no ar no dia 28 de março e as inscrições continuam abertas. Participe e ajude a formar cidadãos críticos, solidários e responsáveis. Nas palavras da professora Teresa Nori, “se a gente conseguir isso, a gente melhora o mundo”.

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Não precisa”, afirma Giselle. “Para isso basta uma boa roda de conversa e uma rede de confiança.”A Inteligência Artificial na vida cotidiana dos estudantesEm essência, Os Códigos de Sofia convida os estudantes a discutir IA e pensamento computacional a partir da vida real, com lápis, papel e com a profundidade que nasce da escuta, do diálogo e da imaginação coletiva.A experiência dos estudantes de Jaguariúna (SP) se estendeu para reuniões com as famílias, onde temas como segurança digital e propósito das atividades desplugadas ganharam espaço. As conversas deixaram claro que a escola não pode ignorar o que acontece fora dela. “As crianças estão usando IA em casa. Mas, e na escola, o que se está falando? Como se está falando?”, questiona.Telma resume sua visão sobre o valor do trabalho desplugado: “Não é romantizar a falta de infraestrutura, é entender que IA e pensamento computacional são habilidades que precisam ser desenvolvidas com ou sem acesso à tecnologia.”A partir de Sofia, sua turma escreveu, criou, discutiu, investigou, envolveu as famílias e até experimentou programação no Scratch. Um percurso completo e que foi iniciado apenas por uma carta.Por que falar de IA sem telas?Os Códigos de Sofia surgiu no final de 2024, quando os debates sobre proibição de celulares nas escolas ganharam força. Para Giselle, esse contexto trouxe também a oportunidade de abordar criticamente a tecnologia em um momento no qual, em sua visão, o ensino relativo à IA e ao pensamento computacional vêm sendo dominado por um imaginário de eficiência e de automação.“A percepção era de que esse ensino estava sendo feito de maneira colonizada, por uma ideia de perfeição e inevitabilidade, mas esvaziado de presença, de toque, de afeto”, enfatiza.Assim, a iniciativa mostra que é possível discutir algoritmos, padrões, dados e ética sem depender de telas, e que é possível formar pensamento crítico sobre IA antes mesmo de colocar a mão em um dispositivo. “Ensinar tecnologia deve ser, acima de tudo, um processo humano, coletivo e profundamente conectado às experiências de cada estudante”, afirma Giselle.A proposta também contribui para que escolas sem conectividade não fiquem de fora do trabalho de desenvolver competências digitais. Afinal, embora o país tenha avançado na expansão da internet nas escolas, o acesso ainda é desigual e desafia a inclusão plena de todos os estudantes na cultura digital.Conectividade e o cenário brasileiroEntre 2023 e 2025, o Brasil alcançou um marco importante quando o número de escolas públicas equipadas com salas de aula que possuem internet de qualidade e conexão sem fio para uso pedagógico subiu de 45,4% para 65,89%, segundo dados do Ministério da Educação. Ainda assim, aproximadamente um terço das escolas públicas não dispõe dessa infraestrutura. Pelo menos 33% relataram não usar a internet em seus processos pedagógicos, e cerca de 10% afirmaram não ter qualquer acesso à rede, de acordo com o Censo Escolar.Mesmo onde há conexão, a disponibilidade de dispositivos para uso dos estudantes permanece limitada, especialmente em redes municipais. Essa realidade evidencia um cenário em transição, onde há conectividade em expansão, mas persistem desigualdades importantes entre zonas rurais e urbanas e entre diferentes redes de ensino. Por isso, é essencial fortalecer iniciativas que garantam oportunidades de aprendizagem digital para todos, inclusive em contextos com pouco ou nenhum acesso à internet.Uma nova etapa para o ensino de tecnologia no BrasilEm 2026, todas as redes de ensino terão que implementar a BNCC Computação, que trará uma série de novas habilidades obrigatórias a serem desenvolvidas nos estudantes, em temas como pensamento computacional, mundo digital e cultura digital. Dessa forma, iniciativas como Os Códigos de Sofia garantem que mesmo as escolas com poucos recursos de conectividade e equipamentos possam ter a oportunidade de trabalhar essas competências de formas alternativas.O projeto de Giselle, inclusive, aborda conceitos presentes na BNCC Computação, mas traduzidos para uma linguagem humana e cotidiana. Um de seus grandes motores é romper a ideia de que discutir IA é privilégio de especialistas. “Esse discurso de que a IA não me pertence, que é feita para quem entende de ciência de dados, é algo que desumaniza o tema e afasta”, observa a educadora. Para ela, estudantes e educadores precisam se sentir parte dessas discussões que, muitas vezes, parecem restritas a centros de tecnologia do norte global.“O projeto cria espaço para que nossos alunos pensem tecnologia a partir deles mesmos, do cotidiano, dos conflitos reais, para que entendam que pertencem a essas conversas”, finaliza. Os Códigos de Sofia mostra que esse processo de aprendizagem independe de ter acesso a laboratórios de informática ou dispositivos digitais.Quer aprender a ensinar pensamento computacional?Se você deseja levar esse olhar para sua prática, a plataforma Escolas Conectadas oferece o curso “Pensamento Computacional e Programação na Educação”. Totalmente gratuita e on-line, a formação dialoga diretamente com a proposta de Giselle Santos de trabalhar lógica, algoritmos, padrões, sistemas e ética a partir da realidade da escola. Afinal, ensinar tecnologia não é sobre ter equipamentos, é sobre formar pessoas capazes de questionar, criar, decidir e compreender o mundo que as atravessa.

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