A escrita autoral como aprendizado e ferramenta de conexão

25/04/22

Escrever – ou exercer a autoria – também é um método de adquirir conhecimento, sobretudo autoconhecimento. Na prática da escrita, nos colocamos numa posição de investigação e criação de sentidos, e o primeiro passo para poder expressar alguma coisa é saber o que desejamos expressar. 

Nancy Huston, no livro A espécie fabuladora, chega à conclusão de que o ser humano constrói o sentido de sua existência através de relatos: contamos a nós mesmos a história de nosso nascimento, dos eventos da nossa vida e sabemos que, algum dia, esse enredo chegará ao fim. As narrativas permitem não apenas relatar o passado, mas imaginar o futuro. Nenhum outro animal (nem mesmo os chimpanzés, tão similares aos homens) faz planos, combina um encontro no final de semana, pensa em termos de “quando eu crescer” ou reflete sobre o futuro do país. 

As histórias estabelecem vínculos entre o tempo passado, o presente e o futuro, além de criar vínculos entre as pessoas. Para Huston, todas as relações humanas se baseiam em narrativas ficcionais: quando um grupo de pessoas decide torcer por um mesmo time de futebol, essas pessoas compartilham da mesma ficção de que aquele é o time mais digno de torcida, de que ele é inerentemente melhor que os outros, e de que o ato de torcer as torna companheiras.

O texto é sempre um criador de sentidos

Segundo Nancy Huston, essa necessidade de contar histórias é o que nos torna humanos. Somos a única espécie animal capaz de narrar, a única espécie capaz de dizer a um de seus pares que “hoje de manhã a resistência queimou e tomei banho gelado”. Por mais banal que seja um depoimento desta classe, ele está comunicando muito mais a quem escuta. O destinatário dessa mensagem, que presumivelmente já passou pela mesma situação, sabe que o dia do amigo começou mal, sabe que talvez ele esteja de mau humor e sabe – se for um pouco mais sensível – que oferecer um café quentinho poderá fazer toda a diferença nesse dia que começou com água fria. Essa ampla rede de sentidos se desenrola a partir de uma única frase narrativa, e nem o mais bem treinado chimpanzé do mundo poderia chegar perto disso.

Quando levamos o ato de contar histórias para a escrita, ganhamos ainda mais camadas de significado. Por meio do estilo textual – na fluência de tons, ritmos e jogos de linguagem – é possível chegar a sentidos que não poderiam ser formulados em textos técnicos, muito menos em equações e, com frequência, tampouco sequer em termos de certezas. A prova disso é que aquilo que um poema diz raramente pode ser resumido: é necessário ler o poema em si para saber do que se trata.

A poesia é apenas um dos caminhos da produção textual. O texto criativo pode estar presente nas mais variadas peças, de romances a roteiros audiovisuais, de histórias em quadrinhos a crônicas, de "textão" de Facebook a legenda de Instagram. Todos esses universos podem ser explorados junto aos estudantes, despertando curiosidade e motivação.

Com a palavra, o estudante: como incentivar a autoria

Ciente da importância da leitura para o desenvolvimento da expressão escrita, a professora Raimunda Nonata de Jesus Araujo Borges, que já completou mais de 800 horas de cursos na plataforma Escolas Conectadas, desenvolve com sua turma de 6º ano um projeto de leitura coletiva, uma leitura semanal de poesia e estimula a produção de um ou dois textos por semana. “Não são textos grandes”, ela explica, “a ideia é que eles se tornem capazes de responder a questionamentos e saibam expressar o que estão sentindo no momento”. 

Na sala de aula, partir da leitura para chegar à prática da escrita é algo que exige estratégias de mobilização da criatividade e da imaginação. O incentivo à escrita é um dos caminhos mais férteis para apoiar e acolher a autoria dos alunos, conceito central na construção de um ensino voltado para o futuro e inserido na cultura digital. Nos cursos da plataforma Escolas Conectadas, além de os professores adquirirem ferramentas para estimular a criação dos alunos, eles têm acesso a ideias para trabalhar com a produção colaborativa de conhecimento, em projetos que aproveitam a tecnologia como caminho para interações e mediações em rede.

Muito se fala que o mundo contemporâneo é o reino das imagens, dada a proliferação de vídeos, fotografias e redes sociais nas quais a aparência é o valor fundamental. Mas a verdade é que a era digital depende inteiramente da comunicação textual. Nestes tempos de proliferação de informação, o texto rege desde a linguagem de programação até a piada escrita em cima do meme. A palavra nunca foi tão democraticamente disseminada.

Para que os alunos se sintam motivados a explorar a escrita dentro da cultura digital, é preciso que os exercícios partam de um genuíno desejo de se comunicar e compartilhar, daí a importância de engajar os estudantes em atividades que despertem seu interesse. Felizmente, isso fica mais fácil com o auxílio dos cursos do projeto Escolas Conectadas e após o fortalecimento da comunicação on-line – que se tornou uma necessidade de primeira ordem durante os anos de pandemia. Alunos e professores poderão experimentar diferentes modos de produção coletiva, seja conversando em tempo real, seja colaborando de modo assíncrono em ambientes digitais. Há muitas histórias ainda por serem escritas, por educadores e estudantes, todos autores.

A plataforma Escolas Conectadas tem diversos cursos que abrem os caminhos da autoria e da criação narrativa. No mês de maio, dois cursos terão início:
- BNCC, autoria e tecnologias digitais: inspirações para criar e aprender

- Narro, logo existo: criando histórias digitais e recursos multimídia



 

 E você pode agora mesmo começar dois cursos voltados para a produção textual. Acesse as páginas dos cursos e se inscreva!
- Produção colaborativa de conhecimento: redes para multiplicar e aprender
- Produção textual na cultura digital



 

Comentários:


Escreva um comentário

Conteúdos Recentes

O que faz um(a) professor(a) nas férias?

Dicas para aproveitar o período de descanso para cuidar de si e, aos poucos, retomar a rotina pedagógica O período de férias é sempre um convite à reconexão. Depois de um ano intenso, marcado por demandas, projetos, imprevistos – e também muitas conquistas –, enfim chega o momento de desacelerar. Para quem vive a rotina escolar, essa pausa não é luxo, mas sim parte fundamental do trabalho. Cuidar do corpo, da mente e do descanso é o primeiro passo para iniciar bem o próximo ciclo letivo.As férias oferecem esse espaço. É tempo de dormir sem despertador, de recuperar a energia, de estar com quem faz bem, de colocar o corpo em movimento e de criar pequenos rituais que ajudam a reorganizar o cotidiano. São pequenas escolhas que reforçam o autocuidado e reduzem o estresse acumulado ao longo do ano.Como aproveitar as férias priorizando o bem-estar:Crie momentos de descanso real, sem culpa;Invista em atividades que renovam a energia: caminhadas, hobbies, eventos culturais;Busque apoio emocional quando necessário e fortaleça redes de convivência;Desconecte do ritmo acelerado da escola e reconecte-se ao próprio tempo.Mas também existe um outro movimento, tão natural quanto o descanso: aquele momento em que, já em meados de janeiro, a mente começa a se abrir novamente para a escola. Não é sobre transformar as férias em trabalho, e sim permitir que a rotina pedagógica volte devagar, com leveza. Uma leitura despretensiosa, uma anotação de ideia para um projeto futuro, a revisão de um conteúdo ou até a participação em uma formação gratuita e on-line podem ajudar a fazer essa transição de forma tranquila.Como retomar aos poucos a rotina pedagógica:Explore leituras leves sobre temas que inspiram o planejamento pedagógico;Revisite anotações e ideias acumuladas durante o ano;Realize formações curtas e flexíveis, que não pressionem o ritmo das férias;Mapeie objetivos pessoais para o ano letivo de 2026.As férias podem ser esse intervalo que recarrega, reorganiza e abre espaço para um início de ano mais equilibrado. Ao cuidar de si e acolher o próprio tempo, é possível chegar a 2026 com mais disposição, presença e clareza para enfrentar novos desafios dentro e fora da sala de aula.

0

Histórias inspiradoras de educadores que marcaram o Escol...

Relatos mostram como processos formativos ganham força quando conectados aos desafios da sala de aula.Ao longo de 2025, a plataforma Escolas Conectadas reuniu relatos de educadores que, após realizarem cursos gratuitos, decidiram ressignificar suas práticas, experimentar o novo e envolver estudantes em projetos que dialogam com a vida real. Essas histórias de todo o Brasil demonstram como processos formativos ganham força quando conectados aos desafios concretos das escolas.A seguir, trazemos um panorama inspirador dos relatos publicados durante o ano, organizados pelos temas que estiveram presentes nas salas de aula pelo país. Confira!Inovação e tecnologia para aprender com sentido1. Animação para conscientizar sobre o HPVElaine Soares (RJ) transformou o aprendizado sobre saúde pública em criação artística: estudantes produziram animações para compreender o que são doenças sexualmente transmissíveis, como preveni-las e por que a vacinação importa. O processo criativo ajudou a dar voz aos jovens, aproximando ciência, linguagem digital e cuidado com o próprio corpo.2. Inteligência Artificial a serviço da fluência leitoraEm um projeto que une tradição e futuro, as educadores Roberta Taffarello e Iolanda França (SP) integraram ferramentas de IA às práticas de leitura diária. O recurso ajudou a acompanhar o ritmo de cada estudante, oferecer devolutivas personalizadas e fortalecer o gosto pela leitura. Uma experiência que mostra como a tecnologia, quando usada com intencionalidade pedagógica, amplia possibilidades.3. Robótica e programação para desenvolver protagonismoOutro destaque do ano veio de uma escola de João Monlevade (MG), que incorporou robótica e programação ao currículo, estimulando raciocínio lógico, criatividade e resolução de problemas. A prática, promovida pelo professor Hailisson Ferreira, aproximou os estudantes dos desafios contemporâneos e ampliou o letramento digital, sempre com atividades mão na massa e colaboração.Inclusão, diversidade e cidadania na prática escolar4. Educação inclusiva com apoio das tecnologias digitaisAs professoras Rosa Helena da Silva (SP) e Andrea Leinat (MT) reorganizaram atividades e recursos digitais para garantir a participação de estudantes com diferentes necessidades. As histórias mostraram que pequenas adaptações podem gerar pertencimento e autonomia, desde o uso de vídeos acessíveis até a oferta de tarefas multimodais.5. Formação para a cidadania digitalO relato de Glaucia Gonzaga (AL) trouxe reflexões sobre responsabilidade on-line, ética, segurança e convivência virtual. Após uma formação, a educadora conseguiu criar momentos de diálogo sobre redes sociais, exposição, combate à desinformação e respeito nas interações digitais. Assim, os estudantes passaram a enxergar o ambiente virtual como extensão da vida em sociedade.6. Práticas antirracistas em sala de aulaAo longo de 2025, três professores baianos trouxeram experiências de educação antirracista aplicadas em sala de aula: Gilvaneide Carvalho, que organizou um desfile de penteados afro; Marenice Costa, que propôs à turma uma reflexão sobre o local onde vivem a partir de fotografias tiradas de seus celulares; e Rosendo Lima, que criou um atelier artístico para fortalecer a identidade negra.As práticas envolveram estudo de identidade, releitura da história afro-brasileira, valorização de autores negros e criação de espaços seguros de diálogo, experiências que reforçam o papel da escola na promoção da equidade racial.Aprendizagens que conectam escola, território e expressão artística7. Matemática que nasce do cotidianoO professor Marcelo Moraes (MT) apresentou um case de ensino de matemática que partia da realidade dos estudantes, reunindo problemas inspirados no bairro, coleta de dados da comunidade e práticas investigativas. Uma abordagem que ajudou a reduzir bloqueios, fortalecer a autonomia e tornar os números mais significativos.8. Educação ambiental por meio da programaçãoUma atividade que integrou meio ambiente e computação, realizada pela pedagoga Fabiana Coronel e disponível para todos os educadores do Brasil, mostrou como a programação pode ser um caminho para discutir sustentabilidade. Os estudantes criaram pequenos projetos digitais para representar problemas ambientais e propor soluções, unindo criatividade e consciência ecológica.9. Versos do Nosso ChãoEncerrando o ano, o blog apresentou o projeto Versos do Nosso Chão, em que a poesia, identidade e território se encontram. Estudantes escreveram e performaram textos que nasciam de suas próprias vivências. Assim, aquilo que começou como expressão individual floresceu em pertencimento e memória coletiva.O que 2025 mostrou sobre o poder do professorOs cases publicados ao longo do ano reforçam uma certeza: na educação, a transformação nasce da coragem de experimentar, escutar e criar junto com os estudantes. Cada história apresentada aponta caminhos possíveis, replicáveis, adaptáveis, reais e mostra que, quando educadores se apropriam desses temas com intencionalidade pedagógica, a aprendizagem ganha vida.

0

Assista à Retrospectiva Escolas Conectadas 2025

Alerta de spoiler: você levou o prêmio principal!Em 2025, os educadores brilharam como verdadeiros protagonistas do cinema. Ao longo do ano, a plataforma Escolas Conectadas apoiou histórias dignas de vencer um Oscar. Por isso, nos inspiramos nas premiações do cinema para reviver os melhores momentos dessa superprodução da educação. Afinal, no palco das escolas, quem brilhou de verdade foram os educadores que nos acompanharam ao longo de mais um ano! Um elenco que inspira, ensina e muda histórias todos os dias.Confira a seguir uma prévia da Retrospectiva Escolas Conectadas 2025, e clique no botão abaixo para assistir na íntegra. Alerta de spoiler: você levou o prêmio principal!😉

0

Projeto utiliza poesia para incrementar relação da escola...

A iniciativa ‘Versos do nosso chão’ ganhou asas após professor realizar o curso gratuito Metodologias ativas: aprendizes protagonistasEm uma escola localizada no assentamento Caxirimbu, na cidade de Caxias, interior do Maranhão, a poesia encontrou um caminho diferente para nascer. Em vez de vir apenas dos livros, ela passou a brotar das memórias e da vida dos próprios estudantes.Assim surgiu a iniciativa “Versos do Nosso Chão”, criada pelo professor de Língua Portuguesa Luís Lima, que acredita que a literatura pode ser um espaço de reinvenção do mundo e de afirmação da identidade. “O projeto foi concebido para valorizar a poesia como forma de expressão cultural e dar voz aos alunos e à comunidade local, resgatando memórias, tradições e experiências do campo”, afirma o educador.Mediação e autoriaO impulso inicial veio de uma preocupação concreta. Após a pandemia, Luís percebeu que “a questão da leitura se complicou mais ainda na minha escola”. Era preciso criar novas pontes entre os estudantes e o ato de ler. Assim, antes de despejarem versos no papel, os jovens mergulharam em obras de autores ligados ao território e à cultura popular, como Cora Coralina e Patativa do Assaré. Depois, saíram para a comunidade: entrevistaram moradores, conversaram com artistas locais, visitaram diferentes expressões culturais e religiosas. Tudo isso para que, ao escrever, pudessem refletir criticamente sobre sua própria realidade. “Vamos romper com a prática de pegar uma leitura já consagrada e praticamente a recriar; vamos ler essas obras para embasar as nossas poesias”, explica o professor.E funcionou. A sala de aula se abriu para novas vozes – inclusive de estudantes mais tímidos. “Quando eu falava para eles, sempre destacava: nós vamos fazer poesias autorais. Eu vou somente mediar. O conhecimento é para vocês, que serão os protagonistas totais.” Para além da escolaAssim, em oficinas criativas, cada aluno criou seus próprios versos, combinando memórias, histórias da comunidade, reflexões sociais e um forte senso de pertencimento. O resultado tomou forma em sarau, mural poético, apresentações dramatizadas e um livreto autoral que encantou todos que o folhearam.O impacto atravessou os muros da escola. Famílias receberam visitas e puderam acompanhar de perto o processo criativo dos filhos. Muitos elogiaram a iniciativa: “Ainda não tinha existido essa proximidade de professores visitando os pais de alunos”, conta Luis. A comunidade percebeu o valor do projeto, e os próprios jovens se reconheceram enquanto criadores.Capa do livreto Versos do Nosso ChãoPara Luís, a iniciativa também foi marcante: “Esse projeto me trouxe a certeza de que eu estou fazendo o que gosto. Fiquei maravilhado, não só pelo reconhecimento da comunidade, mas pelo reconhecimento do próprio aluno.”Da formação à práticaO educador destaca que o projeto ganhou forma e aprofundamento após sua participação no curso gratuito “Metodologias ativas: aprendizes protagonistas”, da plataforma Escolas Conectadas. “A formação foi essencial para a criação da prática, orientada pelo protagonismo dos aprendizes”, afirma.Segundo ele, o curso ampliou sua compreensão sobre inovação pedagógica – especialmente aquela que não depende apenas de tecnologia, mas de escuta, mediação e construção coletiva. “Inovação não é só trabalhar com tecnologia: é dar voz aos estudantes.”A formação lhe deu ferramentas para identificar dificuldades, orientar processos, fortalecer a autonomia dos estudantes e transformar a sala de aula em um espaço vivo de experimentação literária. “O curso ampliou esse campo de experiência, trouxe apoio para nortear mais o aluno e fazer ele reconhecer que é o verdadeiro protagonista do próprio aprendizado.”

0